quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

A chuva, a terra e você


Gosto de olhar a chuva,
de ouvir o som da água chegando.
Gosto de sentir a frescura do ar,
de molhar a mão,
molhar o rosto,
na água da chuva,
que vem refrescar a terra.

Gosto de olhar para a chuva,
de olhar a cor azul do céu sumindo.
Gosto de sentir a calmaria aparente,
de pertencer ao grão,
pertencer ao chão da terra,
que a chuva há de encharcar.

Gosto de olhar através da chuva,
de tocar na gota que escorre do fio.
Gosto de sentir nos cabelos,
de sentir no corpo,
o gelo da água da chuva,
que vem refrescar a terra.

Gosto de olhar na cor da chuva,
de imaginar a chuva azulando.
Gosto de sentir o gosto da chuva,
de experimentar o sal,
experimentar o doce da terra,
que a chuva há de encharcar.

Gosto do barulho vagaroso da chuva
a chegar do céu ao chão.
Gosto de sentir o frescor do ar,
o friozinho que brota do mar.
E molhar meu corpo
em meio a água da chuva,
que vem refrescar a terra.

Gosto do seu corpo na chuva,
de pensar nele ao meu encostando.
Gosto de olhar você,
de sentir seus lábios molhados,
senti-los sobre os meus.
Corpos deitados na terra,
que a chuva há de encharcar.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

SINTO VERGONHA…




Domingo. Pede cachimbo, dizia minha vó materna. As tradições de família, as lembranças do jeito de ser das pessoas… Foi em um domingo, um desses, estive em um evento literário em Petrópolis. E um momento me transformou. Sei que a literatura tem o poder de iluminar as mentes. Um livro pode fazer grandes alterações em nossa forma de enxergar a vida.
O mote do bate-papo era a antologia Negras Crônicas : escurecendo os fatos. O assunto era mulheres negras e suas vivências. O livro contém umas quarenta narrativas que dizem respeito a uma quantidade significativa de experiências ruins vividas pelas autoras publicadas.
Eu participava da roda de conversa e duas das autoras, que estavam presentes, começaram a falar sobre o livro, sobre o edital e sobre a publicação. Todavia, o assunto que tomou vulto, e não poderia ser diferente, foi a questão do racismo.
Em depoimentos bastante emotivos e indignados elas apresentaram as suas relevâncias.
Costumo fazer de minha trajetória uma jornada de aprendizado e procuro sempre melhorar como ser humano. Aos poucos, apesar de ouvir absurdos sobre os negros durante minha vida, eu passei a ter o meu próprio pensamento a esse respeito e já há bastante tempo que tirei de mim o sentimento de inferioridade que pessoas sentem pela população afrodescendente. Olhares de desdém, por mais que tenham instrução, competência e sabedoria.
Carregam um passado nas costas assim como todos nós carregamos. Porém, um passado que se mantém na cor da pele até hoje e machuca.
A conversa continuou bem acalorada. As autoras que lá estavam, mulheres cultas e bem articuladas, conduziram o assunto racismo com conhecimento de causa. A mais jovem com força no olhar e muita vontade de construir uma outra vertente dessa história de escravidão e subserviência que se mantém atual, por mais luta que haja. A mais madura com excelente performance elocutiva parecia ter no olhar mais tristeza e, devido à vivência acumulada, carregar mais decepções. Um acontecimento único em minha vida, porque até então ainda não tinha presenciado esse tipo de fala. É muito diferente assistir a entrevistas na TV, ou ler nos jornais e nas mídias de todos os tipos.
Apesar do respeito ao assunto e do meu interesse pelo que estava acontecendo, eu, como editora, tinha a curiosidade de saber sobre o que cada uma delas havia falado no livro. Quais as histórias que contaram. Eu gosto de ouvir histórias. Pensei em interromper, não foi possível. Fiquei na posição de logo que desse eu faria uma pergunta. Quando então alguém se manifestou sobre se devemos falar ou não o assunto e como é delicado tocar nas feridas das pessoas. Foi aí que eu aproveitei. Em um comentário muito breve e ingênuo disse que, em minha opinião, deve-se deixar pra lá, não ficar falando do comportamento antiético das pessoas, não é bom reforçar o negativo. Pensava que, simplesmente, se a discriminação racial nunca mais fosse lembrada, poderia acabar e se dissolver no ar.
Descobri que não é bem desse jeito.
Elas viraram para mim e, em um rompante, disseram mais ou menos assim:
- não, não devemos deixar para lá. Temos de falar o que acontece. E as outras pessoas devem nos ajudar e devem ir de encontro ao comportamento racista.
Embora um pouco sem graça, resolvi não me defender e apenas as ouvi. Uma outra moça também de pele negra se manifestou e apoiou a maneira de se revoltar dos jovens, do uso dos cabelos soltos, do orgulho de ser negro. O que eu também apoio. Eu pensei, mas não disse. Não consegui dizer.
Por fim, perguntei a respeito do que tinham escrito no livro. Uma delas contou sobre um passeio que fez com conhecidos em uma fazenda do Vale do Café. Ao visitarem a senzala, existia uma representação bem real, em cera, de negros presos e acorrentados, como se estivessem mesmo sangrando, em tamanho natural. Ela disse: doeu na pele! E ainda acrescentou que um menino negro, visitante, começou a chorar. A partir desse relato, ainda contaram mais um bocado das histórias de discriminação.
Alguns exemplos de outros países foram lembrados, em que as pessoas têm vergonha do acontecido, como o holocausto, na Alemanha, por exemplo. Aqui, no Brasil, parece que uma parte da população orgulha-se da escravidão e do que aconteceu naquelas épocas. Fora ofensas, ironias e comentários desagradáveis de alguns.
Pois é, naquela hora, um silêncio se instalou em mim, fez-me refletir mais ainda sobre a discriminação racial e de qualquer outro tipo. Aprendi que não basta só não pensar como pessoas racistas, é preciso agir. É necessário combater essa prática tão presente em nosso país. Reagir e dizer que sinto vergonha daquele comportamento de época, e repudiar de modo veemente atitudes ainda tão cruéis e semelhantes da nossa sociedade atual.
Recentemente, já modificada por aquela conversa, fui visitar uma cidade do Vale do Café: Vassouras. Estou fazendo uma espécie de tour particular em algumas dessas cidades. Eliminei as imersões às fazendas de café. Não me interesso mais por lugares de luxo e riqueza que existiam e se desenvolviam por intermédio de exploração, sofrimento e humilhação.
O livro Negras Crônicas foi escrito por mulheres negras e revelou talentos. Algumas histórias chegam a enojar de tão deprimente que é o ser humano sem noção de nossa pequenez. Mulheres fortes e trabalhadoras, estudiosas, mães, filhas, tão iguais a todas nós. Vale a pena ler para conhecer as escritoras e também sentir vergonha de fazer parte de uma sociedade tão ridícula e sórdida, nesses aspectos.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

UM BRINDE À AMIZADE! Rita Tré Becker

Churrasco da Turma do Val em 02 de dezembro de 2019, Petrô do Val.


Há muito tempo,
há muito tempo mesmo nos conhecemos…

Um grupo aqui, outro grupo ali,
meninos e meninas…

O mesmo bairro,
uns mais perto, outros mais longe,
pessoas…

Encontros memoráveis, risadas gostosas,
crescíamos juntos.
Crianças, depois jovens, agora adultos e põe adultos nisso…

Sorrisos, choros, gargalhadas,
amores, algumas dores,
saberes e falares…

Bares, muitos bares.
Noite, muitas noites
e madrugadas estreladas… ainda que chovesse!

Rolling Stones, Led Zepellin
Janis Joplin, Pink Floyd, The Carpenters,
John Travolta, Supertramp,

Caetano, Gil, Bethânia, Gal,
Chico, Tom, Vinícius, Elis…
Roberto Carlos?

Quantas memórias boas!

Mas algo aperta o coração:
é a falta que alguns nos fazem.
foram antes, bem antes …
Fica a lembrança e a saudade que dói.

Vamos em frente!
Sigamos nosso caminho.

Há muito tempo nos conhecemos, não pode ser por acaso,
o acaso não existe, não é?

O acaso é apenas uma ferramenta do destino
que nos aproximou
e até hoje nos aproxima, de um jeito ou de outro.

O tempo arruma as coisas, alguns dizem.
O tempo arrumou de nos unir.

O dia de hoje será para sempre.
Assim como a vida nos uniu um dia
e para sempre ficamos por perto uns dos outros.

Mesmo que o tempo e a distância digam não, (*) 
serão para mim únicos no mundo,
pois vocês deixaram um pouco de vocês comigo
e levaram um pouco de mim...

Um pouco de cada um de nós
criou um todo que se tornou a Turma do Val.

Viva a nossa amizade!

(*) Nessa estrofe realizei intertextualidade com Canção da América, de Milton Nascimento e um trecho de O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

AMOR E REVOLUÇÃO - um filme pertinente





Amor e revolução. Tradução em português para o título do filme original Colonia. Baseado em fatos de uma época conturbada da ditadura chilena. Um rapaz alemão é ativista no Chile contra a arbitrariedade de Pinochet, que tomou o poder após um golpe de Estado contra Salvador Allende. Daniel namora Lena, uma aeromoça, que vai ao seu encontro em um período de descanso e o encontra militando na rua.
Nas décadas de 60 e 70, os militares deram golpe de Estado em quase toda a América do Sul e se tornou uma ditadura. No Chile, durou uns 17 anos. O casal protagonista foge da opressão nas ruas, mas Daniel com o coração revolucionário resolve tirar fotos do abuso de poder dos soldados e é notado por um grupo deles. Lena e Daniel são presos junto aos outros e levados a uma triagem, quando então Daniel é reconhecido por um dedo duro e some da vista de Lena.
Na busca por seu amor, Lena descobre que o levaram para uma colonia que aparentemente era um lugar de cultos religiosos, todavia pertencia a um pregador fanático, um nazista fugitivo. Lá, ele mantinha alguns presos políticos em conluio com o ditador chileno e realizava torturas (método injustificável bastante utilizado por ditadores). O lugar era conhecido como Colonia Dignidad.
O filme aborda os acontecimentos na Colonia, de forma que ficamos sabendo como a fé usada para o mal consegue afetar a fraqueza da mente humana. Naquele local aconteciam abusos sexuais de crianças, violência contra as mulheres e empoderamento dos homens até não ultrapassarem o poder do nazista Paul Schäfer (Michael Nyqvist), além de parte do mote do filme que foi a tortura de Daniel, quase o deixando louco.
A engraçadinha Lena (Emma Watson) consegue encontrar Daniel (Daniel Brühl) e lutam para se libertarem daquele lugar. O filme faz as pessoas se indignarem, denuncia maus tratos e relata a dureza de um tempo que passou, porém deixou marcas indeléveis na América, nesse caso, no povo chileno.
O filme alemão, de 2015, é dirigido por Florian Gallenberger.


E TEM GENTE QUE AINDA APOIA TORTURADOR. VAI ENTENDER...




domingo, 28 de julho de 2019

UM CHORO QUE NINGUÉM OUVE



Chorei um choro solitário nessa madrugada,
de modo que ninguém ouviu…
Chorava o meu coração,
choravam também os meus olhos.
Sem muito alvoroço, eu chorei baixinho,
de modo que ninguém ouviu…
Apertado, o meu peito dificultava o meu respirar
e às vezes eu soluçava,
pensava na tristeza de uma nação,
em um povo sofrido.
Lembrava dos olhos daqueles miseráveis
iguais em todos os lugares, os miseráveis de Victor Hugo e
os miseráveis de todo o mundo.
Chorava dentro do peito e às vezes até tinha lágrimas,
eu as secava devagarzinho, de modo que ninguém viu…
Chorei durante um longo tempo
um choro engolido, em saltos pela garganta.
Imaginava as vozes que nunca são ouvidas,
as dores que nunca têm solução.
Chorava em silêncio, de modo que ninguém ouviu…
Um choro que não era só meu,
um chorar coletivo de gente pobre e faminta
com a humildade no olhar.
Essa gente que ninguém vê,
que chora a vida toda e ninguém ouve...
Rita Tré Becker

segunda-feira, 27 de maio de 2019

À BEIRA DO LAGO PARANOÁ



Fonte: Wikipédia

Esses dias, por acaso, na casa de amigos, assisti a uma entrevista da jornalista Andreia Sadi, na Globo News, com a esposa do vice-presidente da República, Paula Mourão. O local era de uma beleza extrema: o piso, as cores, a paisagem, um jardim imenso, o pôr do sol (uma parte da entrevista aconteceu na área externa), obras de arte espalhadas por toda a área interna. Estavam no Palácio do Jaburu, que é a residência oficial do vice-presidente de nosso país. À beira do lago Paranoá. Uma maravilha de construção!
Assuntos supérfluos, nada que fizesse motivar a curiosidade de uma telespectadora pouco interessada, na verdade, nessa entrevista. Assistindo por assistir, apenas. Muitos sorrisos, muita simpatia, todavia o que me chamou a atenção foi mesmo o local: belíssimo! De repente, a Sra. Paula Mourão recebeu um aviso de que o vice-presidente estava chegando e foi recebê-lo como – ela mesma contou – faz todos os dias. Envolto em seguranças e com a tranquilidade de missão cumprida dos generais da reserva, ele chegou. Brincadeiras e agrados à parte, voltaram à entrevista.
A seguir, a conversa bastante informal aconteceu no lado de dentro da residência. Local bastante amplo e de muito bom gosto. As perguntas continuaram suaves e de boa intenção jornalística. Nenhuma situação constrangedora e nenhuma informação relevante. Apenas uma boa conversa de comadres, eu diria.
Ah! Mas a residência oficial do vice-presidente é mesmo bela! Quanto espaço! Uma vista espetacular. Naquele momento, o sol e o lago criavam juntos uma beleza divina. Uma composição perfeita! Brasília é mesmo incrível! Naquele espaço, apenas do lado de fora, caberiam uns quatro barracos da periferia de lá, a periferia que existe em todo lugar.
Brasília - o centro do poder - é, de fato, um outro país. Naquela hora, pensei nas pessoas que vivem por aí, sem casa para morar. Confesso saber que ninguém, ou melhor, quase ninguém se importa com isso. Penso que dificilmente alguém que estivesse assistindo a tal entrevista estaria sequer lembrando dos barracos em comunidades carentes. Menos ainda dos cantos e vias das favelas em que se esconde a podridão perversa do tráfico. Quando olhei para a imagem do lago e a do pôr do sol, lembrei de uma reportagem sobre o absurdo percentual de pessoas vivendo, no Brasil, sem saneamento básico, com fezes boiando nas águas sob as janelas, se é que posso chamar de janelas aqueles quadrados nas paredes de tijolos aparentes. Um contraste dramático e incorrigível.
Local: Sol Nascente, Ceilândia, Brasília-DF
Fonte:  RadarDF, 15 jan. 2018
O destino é implacável, cada um tem o que merece nessa vida, é o que dizem por aí. Sei lá, este coração não compreende tanta injustiça social. Não adianta, digam o que quiserem, maldigam isso ou aquilo, entretanto este posicionamento será até morrer. O nome para isso é convicção. De que forma podem ser entendidos o desdém da sociedade e mais ainda o descaso das autoridades (se é que são autoridades), muito menos como se relacionar alheia à tristeza nos olhos das pessoas que vivem a pobreza e, bem mais que isso, convivem com a miséria.
À beira do lago Paranoá, o Palácio do Jaburu, uma afronta de tão belo e impávido, uma forma de mostrar ao povo o que significa tanto poder e descaramento.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

O CORRUPTO E O IMBECIL



Uma tese sobre políticos no Brasil atual

Se um político corrupto for identificado e sua culpa comprovada, deverá ser julgado; daí, se ele for de fato corrupto, deverá ser preso e ponto final. Agora, um político imbecil nasce imbecil (a imbecilidade é congênita), cresce imbecil, e aí a imbecilidade evolui, depois ele envelhece imbecil o que é agravante. E então ele morre imbecil. Ou seja, para o político imbecil só morrendo que acaba.
Há um detalhe, descobri recentemente que a imbecilidade também é contagiosa. Ferrou mais ainda.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

UMA ENCANTADORA MISSÃO


Cheguei ao local, parei o carro e fiquei a observar do lado de fora. Parecia uma casa bonita por trás do muro. Entrei no albergue. Tinha um aspecto simples, em terreno plano gramado, uma piscina e uma horta pequenina, onde um missionário evangélico chamado Jonas acolhe moradores de rua. Um trabalho honrado.
Conheci o Albergue Mateus 25:35 por intermédio da Plataforma Transforma Petrópolis no ano 2016. Um modo de as pessoas fazerem conexão entre quem precisa de ajuda e quem deseja ajudar. Neste trabalho voluntário, inscrevi-me como professora de Língua Portuguesa. Após a graduação, lecionei em comunidades carentes e adquiri experiência em recolocação de pessoas em sociedade.
Então, ao ser contatada pelo albergue para alfabetização de moradores de rua, conversei com o administrador, à época, o Sérgio, que também sofrera as dores do abandono. Disponibilizei-me a ajudá-los.
Aos poucos, fui conhecendo eles melhor. Eram só homens. Rejeição, desconfiança, drogas, alcoolismo, revolta, agressividade, dor na alma. Um desafio, já que é um mundo bem diverso e inconstante.
Recebi do administrador uma síntese do perfil de cada ex-morador de rua presente no Albergue Mateus. Naquele dia eram sete. Comecei a minha encantadora missão de alfabetizá-los.
Na primeira aula, eles foram chegando paulatinamente. Olhares desconfiados e taciturnos. Devia ter uns nove. Alguns ficaram do lado de fora, varrendo, cortando grama ou mesmo sentados quietos, a olhar para dentro de si. Fiz a apresentação de todos e ouvi um pouquinho de cada um. Apresentei uma dinâmica em que desenhavam o próprio rosto, escreviam o nome e suas preferências, assim consegui observar como eram em relação aos gostos e ao uso da escrita. A um deles pedi que escrevesse os números de um a nove e cortei cada número, dobrei e pedi que tirassem da cumbuquinha que fiz com minhas mãos. Eles souberam seguir a numeração para responder as perguntas feitas. Uns falavam muito, outros riam, outros ficavam em silêncio. Aparentemente desconfiados. Avaliei o conhecimento inicial de números. Todos tinham.
No meu segundo encontro com eles, já faltava um. - Foi embora! Eles disseram. Observei que, praticamente, todos eram alfabetizados, contudo havia tempos não tinham contato com uma sala de aula e menos ainda com caderno ou livros. Apenas e diariamente com a leitura da Bíblia feita por alguns envolvidos no evangelho. Em situações difíceis de nossas vidas precisamos de fé.
Devagar e com jeito consegui a participação deles em dinâmicas de grupo, ditados populares, caligrafia, e leitura por quem quisesse ler. Extremamente feliz com essa missão, passei a pesquisar sobre alfabetização e letramento. Paulo Freire, apostilas de Educação de Jovens e Adultos, Magda Becker Soares.
Em uma das aulas, levei a letra da música Enquanto houver sol, dos Titãs. Lemos, falamos sobre, fizemos exercício de interpretação das estrofes. Antes, coloquei-os a par do que são versos e estrofes. E, por fim, pus a música para tocar. A minha felicidade foi imensa quando eles cantaram junto com os Titãs.
As aulas foram acontecendo. Falava sobre o alfabeto, as vogais, as consoantes. A letra cursiva, a letra de imprensa. Eles começaram a se mostrar interessados. Frequentemente eu levava música para ouvirmos, o que era bom e proveitoso. Sempre saía de lá com o coração agradecido pela oportunidade.
Alguns alunos novos chegavam vez em quando, devido às complicações da vida e, do mesmo jeito que os outros, tinham quadro de dependência de alguma droga. O álcool era a mais frequente e a mais difícil de se livrar, principalmente, por estar à disposição de todos.
Uma vez por semana eu ia lá. Como era um albergue, acontecia uma certa rotatividade. Não havia uma sequência do aprendizado. Em um dia eu tinha dez, doze alunos, em outra semana apareciam dois, três, quatro, que moravam lá. O missionário Jonas e o administrador Sérgio faziam a gentileza de participar algumas vezes.
Conheci a história daqueles com quem mais convivi. Em cada olhar de confiança e amizade que eu descobria, a minha história de vida ia sendo acrescida de bondade e me dando a certeza de que não podemos virar as costas para as pessoas necessitadas de apoio moral e sentimental.
Cheguei a me interessar pelo trabalho de Nise da Silveira, psiquiatra, nascida em Alagoas, que revolucionou o tratamento psiquiátrico. Ela levava em conta a riqueza da alma dos seres humanos estigmatizados pela chamada loucura. Os ex-moradores de rua com quem lidei expressavam uma vontade desmedida de serem bons homens, mas tinham fardos para carregar. Aprendi bastante com eles, certamente mais do que eles comigo. Foi só um tempo, visto que as situações se transformaram e nada estava como era antes. Nem a minha vida nem a vida do albergue - por ser um albergue - e o objetivo a que eu me propusera também se diluiu. Avisei que iria sair e ficamos tristes.
De quando em quando, lembro deles e de nosso relacionamento. Preocupo-me com o destino daqueles que por mim passaram e penso naqueles que para lá vão, saem e voltam, porque nada nessa vida é definitivo muito menos a vida dos que vivem a necessidade de serem acolhidos.




sábado, 21 de abril de 2018

O JB NAS BANCAS!




O JB nas bancas! Foi a melhor notícia que recebi nestes últimos tempos de destemperos e intolerâncias. Algo que mexeu com minhas emoções. Sentia falta dos artigos; da sintaxe, da semântica, da morfologia, da tipologia, do vocabulário. Da diagramação perfeita na primeira página. Da melhor foto, a que se relacionava à manchete do dia, seja qual fosse a matéria.
JORNAL DO BRASIL! Um símbolo dos intelectuais de esquerda, mesmo que a esquerda não fosse mais tão esquerda assim. O caderno B – um primor – artes, literatura, acontecimentos sociais, música … Nostalgia!
Depois de uma época, passei a comprá-lo mais aos domingos, porque tinha a revista de Domingo. Eu amava ler esse jornal.
Entramos na era digital. Pronto, o JB sucumbiu às virtualidades do nosso dia a dia e passou a ser um jornal digital. O primeiro on line. Lá fui eu atrás dele. Ou melhor, alguns de nós, não é?
Um dia desses, passei na banca para comprar Rio de Prêmios e, como eu não havia visto ainda o impresso aqui em Petrópolis, perguntei ao jornaleiro e, para minha felicidade, ele tinha. Uma paixão antiga, eu disse. Ele riu e comentou que não era só minha paixão, mas de muitas pessoas daqui.
Vim feliz para casa. Um sentimento bom corria pelo meu corpo e de vez em quando eu me lembrava de que era por isto: o JB.
A primeira página, magnífica! A foto de uma viatura da PF em um ângulo perfeito com o prédio da mesma instituição. A matéria sobre um golpe no agronegócio. A tipologia, a clareza da redação. Não sei, mas eu estou feliz! Poderia comentar todo o jornal, cada pedacinho. O caderno B, aquele B em caixa alta, negrito, chamando para os textos que vêm no caderno mencionado.
Agora ele está em cima da mesinha da sala. Dois cadernos, um tanto finos, todavia traz em minha vida uma alegria. Traz também lembranças de um outro tempo. Mexe com a saudade e me faz pensar na presença tão querida de meu irmão e tão distante, pelo tempo que já partiu, de meu pai.
Aí, Betinho, meu irmão! O JB voltou às bancas, pena que falta você...

  A angústia de um pesar      Durante a madrugada me vieram lembranças. Um tanto quanto estranha a minha alma estava que, ...